Como fazer uma análise da necessidade (ou não) de capital de giro no seu negócio

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Como fazer uma análise da necessidade (ou não) de capital de giro no seu negócio

Por Fernando Guedes.

A gestão da necessidade de capital de giro no curto prazo é um assunto de extrema importância para os negócios de qualquer empresa, seja ela de pequeno, médio ou grande porte.

Para financiar projetos, conceder prazos de pagamentos para seus clientes, elaborar políticas de estocagem, assim como, negociar prazo para pagamento de fornecedores, o gestor deve estar sempre de olho se a quantidade de capital disponível em caixa é suficiente para honrar seus compromissos, sem a necessidade da utilização de linhas de crédito de curto prazo, como por exemplo, o cheque especial.

O que é Capital de Giro?

Capital de giro representa o valor total dos recursos demandados pela empresa para financiar seu ciclo operacional. É caracterizado pelo seu grau de volatilidade, explicado pela curta duração de seus elementos e a constante mutação dos ativos circulantes. O fluxo do ativo circulante ocorre de maneira ininterrupta na atividade operacional de uma empresa, conforme ilustrado abaixo:

Como fazer uma análise da necessidade (ou não) do capital de giro no seu negócio

Por que é Importante Gerenciar o Capital de Giro?

De acordo com pesquisa feita pelo Sebrae-SP em 2015, 44% dos empreendedores que afirmam recorrer a algum tipo de crédito, recorrem ao uso do cheque especial, mesmo sendo este, um dos créditos mais caros disponíveis no mercado financeiro. Mas por que utilizar o cheque especial, se existem tantas linhas de crédito mais baratas e de fácil acesso para financiar o capital de giro das empresas? Muitas vezes essa deficiência ocorre pela falta de planejamento financeiro de curto prazo, que tentaremos abordar neste artigo.

Muitos gestores devem se perguntar, em vários momentos de seu negócio, se a quantidade de recursos disponíveis em caixa será suficiente para sanar suas obrigações de curto prazo ou se os recursos existentes são mais do que o necessário, gerando perdas financeiras implícitas, que poderiam estar viabilizando novos planejamentos.

As duas situações são ruins do ponto de vista da administração financeira de curto prazo. Pois empresas que armazenam mais recursos para capital de giro do que o necessário, acabam tendo o chamado custo de oportunidade, pois estes recursos poderiam estar sendo investidos em novos projetos ou em aplicações financeiras, que trariam mais retorno do que parados em conta corrente.

Já quando tratamos das empresas que não têm capital de giro suficiente, os custos são mais claros, pois elas acabam recorrendo ao uso de alguma linha de crédito de curto prazo, que acarretará no pagamento de juros, prejudicando assim, o resultado financeiro do negócio.

Mas com tantas variáveis envolvidas, existe alguma forma de avaliar a qualidade da gestão do capital de giro da minha empresa? Sim. É o que tentaremos abordar a seguir.

Como analisar a necessidade de capital de giro?

Vamos começar apresentando alguns conceitos e indicadores importantes para a realização desta análise:

Prazo Médio de Recebimentos – PMR

Refere-se ao prazo de pagamento que, em média, é concedido aos seus clientes.

Algumas empresas têm uma política bastante conservadora quando o assunto é concessão de prazo para seus clientes, e acabam, por muitas vezes, perdendo espaço para concorrentes que utilizam uma política de prazos mais agressiva. Por isso, este é um indicador muito importante na análise que vamos fazer, pois a política utilizada no seu negócio, influenciará de forma direta no montante de recursos que você terá que ter à sua disposição para honrar seus compromissos de curto prazo.

O PMR é calculado através de uma média ponderada, onde ponderamos os prazos concedidos aos clientes (geralmente em dias) através dos valores das vendas.

Exemplo de Cálculo do PMR:

Considerando as vendas expostas abaixo num determinado período, como podemos calcular o Prazo Médio de Recebimento utilizado por esta empresa?

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Utilizando o conceito apresentado, o PMR desta empresa poderá ser calculado através da média ponderada exibida abaixo:

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Portanto, no período estudado, esta empresa concedeu um prazo médio de pagamento para os seus clientes, de aproximadamente 31 dias.

Empresas que concedem mais prazos, tendem a precisar de um capital de giro maior, que seja suficiente para financiar estes prazos sem que as suas despesas mensais sejam prejudicadas.

Prazo Médio de Estocagem – PME

Indica o prazo médio que as mercadorias da empresa ficam estocadas até a sua venda.

O cálculo do PME é realizado através da razão entre as variáveis: estoque e o custo das mercadorias vendidas (CMV), que podem ser obtidos através do Balanço Patrimonial e da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) da empresa, respectivamente. Este resultado deverá ser multiplicado pelo período analisado, por exemplo: Se os dados forem referentes a um mês, multiplicaremos esta razão por 30, se estivermos tratando com dados semestrais, multiplicaremos por 180, e assim por diante.

Exemplo de Cálculo do PME:

Considerando que uma empresa, após apurar seu balancete mensal, conclui que a sua conta de estoques se encontra na ordem de R$ 15.000,00, e aufere também, através da sua DRE, que seu custo com mercadorias vendidas no mês foi de R$ 28.000,00. Qual o prazo médio de estocagem utilizado por esta empresa?

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Logo, podemos concluir, que 16 dias é o prazo médio em que os estoques ficam parados nesta empresa.

Este índice, assim como os demais, é de extrema importância para a análise de investimento em capital de giro, pois possibilita ao gestor, verificar possíveis ineficiências no processo de estocagem. Quando uma empresa tem um prazo médio de estocagem muito alto, geralmente ela precisará de um capital de giro maior para manter esses ativos parados até que eles sejam vendidos.

Prazo Médio de Pagamentos de Fornecedores – PMPF

Este indicador refere-se ao prazo de pagamento que, em média, seus fornecedores lhe concedem.

O cálculo do PMPF é realizado através da razão entre as seguintes variáveis: as dívidas existentes com fornecedores e o custo das mercadorias vendidas (CMV), que podem ser obtidos através do Balanço Patrimonial e da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) da empresa, respectivamente. Este resultado deverá ser multiplicado pelo período analisado, por exemplo: Se os dados forem referentes a um mês, multiplicaremos esta razão por 30, se estivermos tratando com dados anuais, multiplicaremos por 360, e assim por diante.

Exemplo de Cálculo do PMPF:

Considerando que uma empresa, após apurar seu balancete mensal, conclui que existem dívidas na ordem de R$ 35.000,00 com fornecedores, e aufere também, através da sua DRE, que seu custo com mercadorias vendidas no mês foi de R$ 28.000,00. Qual o prazo médio de pagamento de fornecedores obtido por esta empresa?

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Portanto, esta empresa tem um prazo médio de pagamento de fornecedores, de aproximadamente 32 dias.

Empresas que têm pequenos prazos para pagamento de seus fornecedores, geralmente irão necessitar de um capital de giro maior, quando comparadas às empresas que conquistam maiores prazos para realizar seus pagamentos.

Necessidade de Investimento em Giro – NIG

É o valor mínimo que a empresa deverá ter em caixa para viabilizar toda a sua operação, sem que seja necessário recorrer ao aporte de recursos por parte dos seus sócios ou a utilização de créditos de curto prazo.

O NIG é calculado através da diferença entre os ativos cíclicos e os passivos cíclicos, conforme fórmula abaixo:

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Escrevendo de outra forma:

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Exemplo de Cálculo do NIG:

Considerando uma empresa que tenha um faturamento na ordem de R$ 35.000,00 mensais, e utilizando como base os valores encontrados nos exemplos anteriores como sendo parte do ciclo operacional desta empresa. Qual o valor necessário para capital de giro desta empresa? Ela deve investir ou retirar recursos do seu caixa?

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Portanto, podemos concluir que, para a empresa não ter problemas de capital de giro no curto prazo, ela deverá ter, no mínimo, a quantia de R$ 17.500,00 para manter as suas operações, sem a necessidade do uso de capital de terceiros ou até mesmo de aporte de capital próprio.

Informações importantes sobre Necessidade de Capital de Giro

Empresas de alguns segmentos, devido à natureza de suas atividades, têm a interferência de sazonalidades nos seus ciclos operacionais, ou seja, esses negócios podem necessitar de mais ou menos capital de giro, a depender da época do ano. Empresas que fabricam chocolate, por exemplo, são demandadas pelo mercado de uma forma muito mais agressiva na época da páscoa, alterando completamente seus ciclos operacionais durante este período do ano.

Portanto, é de extrema importância que o gestor, além de acompanhar mensalmente estes índices e prazos apresentados, atente para o contexto no qual a sua empresa está inserida, visando adequar e aplicar da melhor forma possível estes indicadores, verificando em quais períodos do ano ele precisa realizar aporte de recursos para capital de giro, e quais períodos ele poderá retirar recursos para investir em outros projetos ou aplicações financeiras. Empresas que estejam em processo de grande crescimento, também poderão ter seus ciclos operacionais bastantes alterados ao longo do tempo, demandando uma maior atenção para esses prazos e políticas.

Outro aspecto importante é analisar, e estar sempre revisando, a política de crédito que vem sendo aplicada pela empresa em detrimento às suas demandas financeiras e à concorrência. Apesar da estratégia para administração de capital de giro ser bem simples: diminuir prazos de recebimentos e aumentar prazos de pagamentos, o gestor deverá estar atento à demanda dos seus clientes e dos seus fornecedores, para não ser trocado por prazos e políticas de crédito mais atraentes no mercado.

A estratégia da administração financeira de curto prazo também deverá estar alinhada com as suas estratégias de médio e longo prazo, pois cada empresa tem seus objetivos e metas a serem alcançadas, e isso poderá ser prejudicado ou adiado por decisões erradas tomadas no curto prazo.

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