Sócio amigo/familiar. Vale a pena?

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“Seja amigo do seu sócio, mas não sócio do seu amigo.”

Essas e outras frases correlatas nos dão uma direção racional: não misture trabalho e família/amigos. Faz sentido. Mas será sempre válida? Hoje a ideia é falar sobre o tema: vale a pena ter sócio amigo/familiar?

Lado positivo:

Quando pensamos num sócio, pensamos numa figura íntegra, que se relacione bem conosco, e que fique junto até o fim. Isso é basicamente a definição de amigo. Separando em pontos para estruturar o pensamento, amigos/família trazem:

1. Confiança. Você conhece o cara há 20 anos. Não é que ele, por definição, não vá passar a perna ou coisa do tipo, mas se há amor, carinho e respeito, isso não acontece.

2. Talvez a maior vantagem, você conhece essa pessoa infinitamente melhor do que em qualquer processo seletivo, até o nosso! Você viu ela estudando pra prova e caindo de bêbado, jogando bola e te ajudando quando você quebrou o pé.

3. Fator “não vou te decepcionar”. Além de trazer mais chances de dar certo por você conhecer melhor a pessoa e compartilhar seus valores, há mais motivação. É politicamente difícil (e talvez “incorreto”) assumir, mas certamente me dedico mais a um projeto que seja de um amigo meu do que para uma pessoa que eu não compartilho dos mesmos valores.

 

Lados negativos:

 

1. O primeiro ponto arrebata o último anterior. Se seu relacionamento não está bem fora, provavelmente ele também não ficará bem dentro! É muito fácil dizer sobre vida pessoal e vida profissional e separar tudo mentalmente mas na prática há influência sim, até porque (especialmente nesse caso) essa barreira não existe. Em resumo, já vi muitas empresas fecharem porque o casal se separou, um amigo está namorando a mulher do outro ou coisa do tipo.

2. Difícil rotina de conviver em “turno duplo”. A última pessoa que eu quero ver depois daquelas maratonas de trabalho ou dias mais longos é a pessoa que estava do meu lado enquanto tudo isso aconteceu. Quero compartilhar com outros também. Ao trabalhar e viver junto, há de se ter uma sintonia muito fina. Levando esse pensamento ao extremo, trago uma velha frase “Não contrate alguém que você não poderá demitir.” Eu estar feliz com minha namorada fará com que meu empreendimento com ela, provavelmente, dê mais certo. Isso é um fato. Vamos pensar mais nisso, criar mais, trabalhar mais, nos motivar, etc. Agora também é difícil falar “deixa os problemas de casa em casa” ou “do trabalho no trabalho” porque aí você está querendo o impossível: que uma pessoa seja duas.

3. Além da sintonia, uma bela pitada de maturidade! Acredito que poucos de nós temos o bastante para cultivar um relacionamento desses saudável. Diga-se de passagem, esse é mais um daqueles posts fruto de auto- reflexão do tipo “Guilherme leia isso e olha quanto falta pra vc!” Essa questão de haver um entendimento geral sobre o que é esperado, para onde se vai e como e de todos estarem crescendo com isso, é muito difícil!

Lembro-me que numa palestra que tive o prazer de ministrar lá em Campo Grande pelo SEBRAE-MS uma pessoa da platéia me perguntou “estou pensando em abrir uma empresa com meu namorado, o que você acha disso?”. Minha resposta (não exatamente nas palavras do dia) “Você não está pensando nisso, você já está fazendo isso, certo?” Ela respondeu que sim. “Bom, resta a mim desejar boa sorte para vocês e deixar uma dica importante: planeje-se para se tudo der errado. Esquece aquele papo de `na saúde ou na doença, na alegria e na tristeza`. Se amanhã você descobrir que ele está te traindo, que vocês não se gostam mais e que cada um quer que a empresa vá para um lado, o que acontece? Como a decisão será tomada?” Se você souber responder isso e mantiver um constante e aberto diálogo sobre o dia a dia, vejo os lados positivos sobressaindo mais.

 

Conclusão:

 

O óbvio: o “certo” depende e varia. Como toda decisão, tem seus prós e contras e como todo relacionamento, é fluido. Quando a empresa e família estiver bem, pode ser um auge de felicidade, mas o oposto também se aplica. Sou muito novo para dizer o que funcionou para mim e não sou maluco de generalizar, pois já vi de tudo, mas o fato é que se estiver acontecendo no seu caso, te convido a debater e muito bem esse assunto e te-lo bem resolvido (não por você, mas pelos dois), e constantemente re-dialogado. Vale sempre lembrar que escrever esse artigo num país onde 90% das empresas são familiares é quase uma ofensa do tipo “você está tentando ensinar padre a rezar missa?” Porém a ideia aqui não é avaliar se esse modelo funciona ou não financeiramente, mas se conseguimos fazer com que ele, na prática, seja também prazeroso e benéfico, e não um sacrifício de relações familiares e de amizades em detrimento de uma empresa familiar de sucesso, que é o que acontece muitas vezes.

Obs: vale sempre dizer que quando digo “sócio” estou me referindo também a “funcionários”. Como quem nos acompanha sabe, no final das contas acreditamos que, à priori, a tendência seja de convergência para “todos são sócios”.

E você? Como vai sua experiência empreendendo com amigos e família? Comente, compartilhe!

 

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Leandro Borges

Leandro começou a vida profissional prestando consultorias centenas de pequenas empresas em todo o Brasil e foi professor em instituições como SEBRAE, Vale, Souza Cruz, FIRJAN, COPPE e FGV. Hoje, é encantado pelas facilidades que o Excel traz para a gestão empresarial e quer levar essa maravilha para o Brasil e o Mundo!

4 COMENTÁRIOS

  1. Lito, como você sabe, sou sócia do meu pai na eMeCF e seu post me ajudou muito, nos damos muito bem, mas realmente tem horas que essa relação de deixar o trabalho no trabalho e os problemas de casa em casa é bem complicada.
    Obrigada pelo post e parabéns mais uma vez por tudo que você escreve que é sempre de grande valor.
    Abraços e sorrisos,
    Luana
    eMeCF

  2. Guilherme,
    Já tive diversas sociedades, com amigos e com familiares. E concordo com sua abordagem por aspectos positivos e negativos pois, afinal, é uma associação humana.
    Mas,sou muito social e a alternativa às associações creio que seja a atuação solitária, com toda a independência e o poder em minhas mãos. O que não faz parte dos meus objetivos.
    À despeito de algumas e eventuais situações complicadas com os sócios, como eu poderia praticar sozinho o meu “ócio criativo” (mix de trabalho, aprendizado e jogo, conceituado pelo Domenico de Masi)? Virtualmente? Pode ser, mas no concreto há o olhar, o riso de verdade e outras coisas importantes das quais não se deve abrir mão.
    Um abraço.

  3. Oi Luana!

    To gostando de ver você comentando e escrevendo lá no blog de vocês também!

    Volte e comente sempre, e, se possível, sempre com sorrisos! :)

    Bjs

  4. Oi Luiz,

    Tudo bem? Muito legal seu comentário, de fato vemos cada vez mais o conceito de não empresas ou empresas abertas (aglomeração de freelas em comunidades com fins específicos) e pessoas optando por “trabalhar para si”. Vamos seguindo a vida e vendo o que elas nos aguarda!

    Forte abs,

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