O que o carnaval de rua me ensinou sobre empreendedorismo

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Bloco de Rua e o Empreendedoirsmo no Rio de Janeiro

Como nasceu a ideia

No dia 7 de janeiro de 2007, eu e mais três amigos fomos a praia de Ipanema para ver o DJ Tiesto tocar para mais de 200 mil pessoas. Eu, sinceramente, não curti muito o som, mas fiquei extremamente impressionado com o volume de vendas dos ambulantes. No meio de tanta gente, era quase impossível vender pouco.

DJ Tiesto

Naquela noite, antes do show terminar, virei para esses amigos e fiz uma proposta: “Galera, já que a gente não sabe o que vai fazer no carnaval e queremos ser empreendedores algum dia, porque não vendemos alguma coisa nos blocos de rua?”

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Para minha surpresa todos toparam! Mal sabíamos que ali começava uma saga empreendedora…

Planejando…

O bar do Odorico foi o lugar escolhido para nossa primeira reunião. Utilizando de nossos amplos conhecimentos, começamos a discutir sobre posicionamento, estratégia, política de preços, etc. Por pouco não levamos notebook, desenvolvemos matriz swot e um estudo de viabilidade. Na verdade, só não fizemos isso pois não saímos do mesmo lugar: afinal, o que vamos vender?

Bar do Odorico

Entre as idéias sugeridas: cerveja (qual marca?), água, refrigerante, melzinho, energético, vodka, caipirinha, batida, tequila e whisky – Pelo menos já tínhamos decidido que ia ser algum tipo de bebida! 😉

Achávamos que fazer uma caipirinha de maior qualidade seria um bom diferencial, então fomos até a CADEG (um centro de distribuição de bebidas e alimentos) e compramos várias frutas, cachaça e vodka. Fomos para minha casa, fizemos milhares de testes e acabamos bêbados, porém ainda indecisos.

Pode parecer exagero meu, mas o fato é que realizamos um total de 5 reuniões sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. As dúvidas eram muitas pois, além de definição do mix de produtos, nos questionávamos: Vamos ter que fazer parceria com os organizadores do bloco? Será que os ambulantes concorrentes vão nos ameaçar? Colocamos o isopor em um carrinho e vamos puxando ou ficamos parados um pouco antes de onde o bloco vai passar? Quantos isopores vamos precisar? De qual tamanho?

Colocando a mão na massa

Faltavam poucos dias para o carnaval e não tínhamos decidido nada… Então, quase que em um momento de desespero resolvemos inaugurar nossa experiência de ambulantes empreendedores no bloco Simpatia Quase Amor, em Ipanema. Como não decidimos o que iríamos vender, compramos de tudo um pouco: água, melzinho, cerveja Skol, cerveja Itaipava e refrigerante. Passamos em uma fábrica de gelo, pegamos um isopor emprestado e fomos para praça General Osório, de onde o bloco partia.

Bloco de Carnaval

E logo de cara cometemos o primeiro erro: na euforia do momento, decidimos por colocar as bebidas e o gelo no isopor cerca de dois quarteirões longe de onde iríamos ficar. O problema é que depois de cheio de bebidas e gelo o isopor passaria a pesar mais de 100kg. Éramos quatro e por pouco não desistimos… Era pesado demais!!!

A sensação inicial era uma mistura de medo com euforia, com vergonha de encontrar pessoas conhecidas, com inexperiência, com receio dos ambulantes ao redor… Ou seja, os momentos iniciais não foram muito prazerosos.

A primeira venda

O pessoal resolveu dar uma volta para ver melhor se o bloco já tinha saído e eu fiquei sozinho com o isopor. Mantinha pose de macho para não me intimidar com os ambulantes mais próximos, ao mesmo tempo em que segurava as poucas notas de troco que tinhamos arrumado. De repente, um casal para do meu lado e quando eu percebo que possuem intenção de compra, meu pensamento automático foi: “putz, tomara que eles não comprem de mim”.

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Olha que absurdo, eu tava ali para vender, mas não queria vender!!! Em seguida, um diálogo transcorreu mais ou menos assim:

– “Opa, você tem água aí?” (cliente)

– “É…… água? Hmm…. Tenho! Tenho água sim” (eu, em uma mistura de nervoso com falta de lembrança do vasto mix de produtos)

– “Quanto custa?” (cliente)

– “Quanto custa? É…… é…… Dois reais!” (mais uma vez problema de lembrança dos preço do vasto mix de produtos)

– “Me vê uma, por favor? “

Agora tenta imaginar eu pegando a água no isopor, secando a mão molhada na bermuda, pegando o dinheiro e pegando o troco para o nosso primeiro cliente! Ao final, eu não conseguia decidir se tinha curtido a primeira venda, mas com certeza estava aliviado dela ter acontecido. O medo inicial do fracasso tinha passado!

Depois disso, com o pessoal de volta, começamos a vender cada vez mais e mais rápido. Mas o bicho pega mesmo quando o bloco chega até onde você está. Nesse momento, tudo parece acontecer a uma velocidade muito próxima da velocidade da luz.

Mesmo eu sendo o caixa, e os outros três servindo, o volume de clientes ao redor pedindo cerveja era tão grande que se alguém dissesse que tava levando duas cervejas e já tinha pago eu iria acreditar e deixaria. Foi impressionante a velocidade com que o nosso isopor se esgotou! Em pouco menos de 15 minutos, eu estava com um bolo de dinheiro no bolso e as mãos trêmulas de tanta adrenalina.

Estávamos felizes da vida com o nosso mega sucesso empresarial!! Rapidamente estávamos dispostos a vender muito mais ao longo de todo carnaval. E foi o que fizemos, vendemos em mais de 8 blocos diferentes. Às vezes, em dois blocos no mesmo dia.

Os aprendizados

Aprendemos muito, mas muito mesmo. E para facilitar e reduzir esse post, quase um e-book, vou fazer uma lista:

1) Descubra com o seu cliente, testando vendas, qual deve ser a sua oferta – no final das contas, a grande vencedora foi a cerveja Itaipava. Ela é mais leve do que Skol (mulheres preferem), vinha com aquela proteção (que muitas pessoas acreditam ser mais higiênico e pediam para trocar quando a proteção tinha caído) e o custo era mais barato (maiores margens).

2) Divida as funções e crie estratégias para uma boa comunicação – eu fiquei no caixa enquanto os demais atendiam os clientes, pegando o dinheiro e entregando a bebida. No início, cada um me falava uma coisa: em certas horas diziam o número de cervejas, em outras qual tinha sido o preço e o troco. Isso, em alto volume, acaba lhe confundindo. Então combinamos que eles só me diriam o número de cervejas e eu mesmo faria as contas.

3) Ofereça promoções e facilite o troco – A gente cobrava R$ 3,00 cada cerveja, mas logo percebemos que vender três por R$ 5,00 era um bom negócio. Apesar do desconto de 15%, era muito melhor trabalhar com valor múltiplos de 5, pois o troco era muito mais fácil. Além do troco, nossa velocidade de venda triplicava com essa promoção. E tudo começou porque um cliente sugeriu isso…

4) Atendimento e educação são essenciais – Conquistamos muitos clientes, alguns dos quais ficavam o bloco inteiro ao nosso lado. Isso acontecia, pois eramos educados e atenciosos, o extremo oposto da maioria dos cambistas concorrentes.

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E aí, que tal você passar por essa experiência também? Eu garanto que vale a pena!

38 COMENTÁRIOS

  1. legal o post, no carnaval do ano passado eu queria fazer a mesma coisa, cheguei a pegar credenciamento pela Antartica (poderia vender dentro do sambodromo), Isopor, o ruim foi que meus sócios (meu pai e meu amigo) desistiram da idéia (medo, preguiça etc…)

    O ponto principal para qualquer empreendimento é a Ação, apenas faça acontecer pois a maioria não tem peito para isto…

  2. Olá Daniel,

    Eu também tive uma experiência similar com vendas de cerveja no carnaval. No entanto, devido à embriaguez gerada pelo excesso de acesso ao álcool não consegui gerenciar o dinheiro e terminei o dia deficitariamente.

    Você conseguiu administrar o dinheiro e ter algum lugar? Ou também torrou dando dinheiro para crianças vendedoras de chicletes, comprando óculos e outros objetos inúteis?

    Abraços e bom carnaval!

  3. Fala Pessoal! Obrigado por todos os comentários! Vamos um por um:

    daniel castro -> É isso mesmo! Tudo se resume a Ação!

    leandro -> Conseguimos sim! Tirávamos de 80 a 100 reais cada um por bloco. Ou seja, tinha dias que fazíamos 200 reais cada.

    Eduardo -> Respondido acima? 😉

    Ana Maria -> Exatamente! Falha minha!

    Lucia -> Pode crer! Nosso bom amigo Guilherme Velho fazia parte desse grupo de ambulantes malucos!

  4. Ei Daniel essa ideia foi muito boa hahauahuahauahau. Parabéns! Não foi só engraçado, como inspirador essa sua ação, pois, eu também já fiz isso (tava precisando desse trocado na época) e o que você descreveu é bem verdade (mãos tremulas, insegurança), mas eu não descrevi desta forma o acontecido (com a lente do empreendedorismo). hauahuahauahau, foi genial mesmo, a ação e a descrição. Parabéns e sucesso sempre!

  5. Meus pais esse ano fizeram uma parceria com o bloco aqui do meu bairro e montaram um quiosque (desses desmontáveis) e estão vendendo churrasquinho, salsichão, essas coisas. Por ser patrocinado por uma marca de cerveja, só podem vender ela, mas isso serve pra todos ao redor.
    O trabalho é grande e o pior é justamente ter que levar e descarregar as comidas/bebidas, mas ontem deu bastante retorno.
    E dizem que o primeiro dia é o mais fraco!

  6. Obrigado, Fernanda!

    Accioli, essa experiência deveria fazer parte de muitas escolas de empreendedorismo, não acha?

    Vanessa, seus pais mandaram muito bem! Mande meus cumprimentos a eles!

    Obrigado, Marcus!

    Que bom que gostou, Lu!!!

  7. Olá, era isso que eu estava imaginando mesmo, e ótimo saber disso, que realmente existe o nervosismo e demais sentimentos no momento que se inicia um empreendimento, mesmo simples, mas não deixa a desejar! Estamos, eu e meu marido, querendo fazer isso aqui na nossa cidade e cidades da região, não só no Carnaval, mas em todas as festas possíveis, colocar dentro do carro e vender. Temos que pedir autorização para alguém? Queremos colocar nos isopores e colocar dentro do carro. Nada grandioso, mas com um bom retorno, uma renda paralela.

    Att.

  8. Cara, gostei muito de ler sobre sua experiência! Tb fiz a mesma proposta pro meu irmão, vamos vender nesse carnaval pela primeira vez! Vamo que vamo!!! hahha… Abraço.

  9. Legal seu depoimento eu trabalho em metarlugica e minha neném tinha nascido em fevereiro estava um pouco apertado ai vi algumas coisas que poderia fazer e resolvi vender cerveja no carnaval na vila Madalena no primeiro dia cheguei muito cedo fiquei um bom tempo parado o gelo derreteu tive que pegar mais a primeira venda deu muito medo de fazer tinha vergonha passar alguem conhecido e ver eu vendendo cerveja. Mas logo isso passou adorei a experiência passei todos os dias indo vender cerveja agua refrigerante. Foi um sussesso tirei uma grana bem legal.

  10. Também achei que o certo seriam 2 por 5,00 – mas entendi o recado e suas dicas foram ótimas meu colega – animei e vou meter a cara.

  11. Tive esse experiência esse ano. E foi maravilhosa. Estava desempregada, sem um puto no bolso. Esse medo inicial também senti, misturado com vergonha, pessoa com duas faculdades, fala inglês e francês. o Que que eu estou fazendo aqui?! Pensa eu uma menina, com cara de menor de idade vendendo cerveja. Eu fiz tudo certinho. Me cadastrei na prefeitura/skol, criei coragem, e vendi muito mesmo. Até consegui um amigo para me ajudar. Ele mais investiu do que colocou a mão na massa. Mas ajuda moral também é bom. Comprei uma moderninha que ela se pagou no domingo de carnaval. Conheci muita gente gente, utilzei meu francês nos blocos de Perdizes cheios de gringos rsrsrs.
    Agora estou indo vender em outros lugares, Parques, ruas fechadas, etc. Vale a pena fazer uma grana e pra perder a vergonha.

  12. E que a próxima historia de sucesso seja a minha!!!! rsrsrs adorei muito ver que da certo, o que você fica sempre com duvida antes de saber sobre experiências reais.

    • É isso mesmo Davi! Empreender sempre vai estar relacionado a determinados riscos e é verdade que nem sempre dá certo. Mas com o direcionamento certo e muito esforço é possível sim

  13. Daniel…Parabéns pela coragem e por compartilhar essa experiência, serve de inspiração para muita gente, inclusive para mim que vou fazer isso no próximo carnaval…obrigada..

  14. Ei, bacana demais esse relato! Eu e uma amiga da universidade resolvemos fazer isso em uma festa popular aqui em Salvador.. Não estamos desempregadas, mas estamos afim de tirar uma grana extra para fazermos um mochilão no Peru. Além disso, somos boas de venda, conhecemos muita gente, e moro no centro de onde ocorrerá o evento (nosso isopor ficará na porta de casa). Esse relato só me animou ainda mais a continuar com a ideia. Só não tenho a mínima ideia de como definir a quantidade de bebidas. Se puder ajudar, agradeço! Obrigada.

    • Oi Racquel, tudo bom? Te desejo todo o sucesso nesse carnaval! Sobre a quantidade, vai depender muito do tamanho do isopor que você tem, da quantidade de vendas que você gerar. Em tese, quanto mais melhor, assim já fica tudo geladinho no isopor, mas vale a pena colocar um estoque por fora e ir adicionando conforme for vendendo

  15. Boa tarde amigo, tô pensando em fazer o mesmo, porém queremos focar em Catuaba e Askov, garrafa e copo, porém estamos preocupados com o estoque e gelo, onde você guardava as bebidas? tipo você guardava em casa? e depois ia buscar? e se ir umas 10h para o bloco e ficar até às 20h será que vende bastante? você acha que 12 garrafas de Askov vende em 1 dia?

    • Oi Matheus, vamos por partes:
      1 – você pode guardar em casa se tiver acesso rápido. Se não, pode ir de carro e deixar tudo guardado no carro. Nesse caso, basta pegar com um pouco de antecedência para gelar antes
      2 – sobre vendas, vai depender do bloco, do dia, do seu produto e atendimento. De maneira geral, vende bem sim, mas não dá pra precisar a quantidade de garrafas
      3 – vale a pena olhar se é necessário alguma licença para não ter seus produtos apreendidos desnecessariamente

  16. Comecei dia 12 de janeiro a vender bebidas por conta própria porem desde de la até agora pouquíssimo exito logrei e os piores foram justamente em festas carnavalescas por causa de muita concorrência e de ter bares ao redor Comprei uma caixa maior comprei mais bebidas e deixei-a bem chamativa como faço para arrebentar as vendas nesse resto de tempo que falta para o carnaval terminar? abraços

  17. Obrigado por compartilhar a experiência, Rafael.
    Eu e uma amiga tivemos a mesma ideia e nos organizamos para colocá-la em prática.
    Porém, talvez idealizamos muito os lucros ou talvez eles não sejam tão altos mesmo.
    Não temos transporte próprio, então só conseguimos fazer uma leva de produtos, o que pode ter implicar no baixo lucro também, já que não tivemos estoque pra reposição.

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